Estrelas, totens e tambores

Semanas atrás, um chef francês entrou com um processo contra o Guia Michelin por ter-lhe rebaixado de três para duas estrelas, na famosa classificação que põe em polvorosa o mundinho da alta gastronomia todos os anos. O caso me fez lembrar Bernard Loiseau, chef que se matou em 2003 depois de ver crescer boatos de que perderia a honraria máxima na edição seguinte do Guia. 

Tal como a alta culinária francesa, toda profissão tem os seus indicadores de excelência. Acadêmicos medem-se pelo número de publicações em revistas científicas de prestígio. Cineastas e atores, por premiações como Oscars (foto) e afins. Executivos, pelos cargos que ocupam. Todos têm um “pai” simbólico a quem agradar. 

Perseguir com obstinação determinados standards de reconhecimento é, a um só tempo, estimulante e perigoso. Estimulante porque oferece um norte para a trajetória profissional. Perigoso porque pode representar uma espécie de terceirização da felicidade e da autoestima. Não basta a autoavaliação; precisa-se do aplauso de instituições, superiores hierárquicos e representações algo abstratas como a “opinião pública”.  

Não chega a ser surpreendente: povos primitivos cultuavam seus deuses, representados em totens. Hoje, mitos e totens foram modernizados sob a forma de Michelins, Nobels, Oscars e cargos de comando. 

Ser um pouco Bernard Loiseau é inevitável, portanto? Nem tanto. Alguns de seus contemporâneos de estágio, por vontade ou circunstância, não jogaram o jogo estrelado dos guias. Mesmo tendo sido treinados junto aos mais renomados chefs de seu tempo, traçaram trajetórias bem diferentes da de Loiseau: um tornou-se professor de culinária; outro, emigrou para os Estados Unidos, mercado bem menos sofisticado e exigente gastronomicamente; um terceiro tornou-se proprietário de um restaurante que sequer é mencionado no Michelin.

Nos Estados Unidos, talvez fossem chamados de “perdedores”, mas a sabedoria de suas escolhas remete, curiosamente, ao pensamento de um norte-americano do século XIX. Em 1845, Henry Thoreau refugiou-se por dois anos em uma pequena cabana distante da cidade, e passou a viver do que plantava, caçava e pescava. Voltou à “civilização” para narrar suas experiências em “Walden, A Vida nos Bosques”. No livro, Thoreau faz uma verdadeira exaltação à renúncia aos estressantes jogos de reconhecimento aos quais chefs franceses e tantos outros profissionais estão metidos em sua vida cotidiana. Questiona Thoreau: “Por que devíamos correr desesperadamente atrás do sucesso? Se um homem não acerta o passo com seus companheiros é porque talvez ouça um tambor diferente. Deixai-o marchar conforme a música que ouve, ainda que lenta e distante.” 

Acreditar nos totens modernos é menos um destino que uma escolha, portanto. Loiseau devotou sua vida a um deles; Thoreau, mais de um século antes, decidiu ignorá-los. 

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