Cerveja deve ficar até 15% mais cara neste ano

Alta do dólar, falta de embalagem e quebra da cadeia produtiva terão impactos ao longo de 2021

Cerca de 30% das empresas brasileiras registram falta de produtos ou dificuldade de entrega por parte de fornecedores

A cerveja, uma das bebidas preferidas do brasileiro, deve ficar bem mais cara em 2021. Com a crise causada pelo novo coronavírus sem data para acabar e o dólar em constante alta, a previsão é de que insumos que precisam ser importados, como o lúpulo e o malte, e problemas na produção de embalagens e na cadeia logística, encareçam a bebida preferida dos brasileiros ao longo do ano. Segundo Carlo Enrico Bressiani, diretor da Escola Superior de Cerveja e Malte (ESCM), os comerciantes estão segurando os preços o máximo que podem, e embora não seja possível cravar uma porcentagem de aumento, o reajuste deve ser entre 10% e 15%.

Se a previsão de Bressiani se concretizar, o reajuste será muito maior que em 2020. No ano passado, a cerveja vendida em supermercados, por exemplo, ficou 1,94% mais cara, enquanto a bebida vendida em bares e restaurantes teve uma elevação de 2,95%. “A constante alta do dólar gerou impacto no custo dos commodities, sem contar o custo de energia elétrica, que também aumentou. Esses fatores tiveram influência direta no preço das bebidas. Se foi possível segurar até o momento, certamente o impacto vai desaguar em 2021. O Brasil é um país fechado, cheio de burocracia e que enfrenta problemas com a variação cambial. Quem sofre mais são as pequenas empresas, pois a maioria não tem contratos de compra e fornecimento mais estáveis e adquirem produtos conforme a demanda, mas até os grandes terão de aumentar o preço para o consumidor final”, prevê.

Outro sério problema da indústria é a falta de embalagens, algo que tem ocorrido também no setor vitivinícola, como já mostrou o Cepas & Cifras. Cerca de 30% das empresas brasileiras registram falta de produtos ou dificuldade de entrega por parte de fornecedores, segundo uma sondagem especial realizada pelo FGV Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas). A cerveja, que ocupava 55% do mercado de latas de alumínio antes da quarentena, chegou em junho a um recorde de 70% do share entre as bebidas que utilizam a embalagem, segundo dados do semestre divulgados pela Abralatas (Associação Brasileira dos Fabricantes de Latas de Alumínio).

“O hábito de consumo mudou de forma repentina e inesperada, afetando a demanda instalada destes setores e aumentando o consumo de bebidas em lata. Para os consumidores, as latinhas são preferência devido ao preço unitário ser mais barato do que a garrafa de vidro. Para as distribuidoras, como supermercados, além de mais barato também é mais fácil de transportar e armazenar”, justifica Edinelson Marques, gerente comercial do Grupo Pinho, especializado em comércio exterior e logística aduaneira.

Mas segundo o especialista, não há falta de alumínio, mas produção industrial suficiente. “No Brasil não há falta de alumínio, até porque a maior parte da matéria-prima produzida volta por meio da reciclagem, algo que não é tão comum na cadeia de vidro.O que falta é produção industrial na escala necessária para atender a esse novo padrão de consumo. Por isso a maior cervejaria do Brasil, a Ambev, recentemente inaugurou uma nova fábrica de latas, em Minas Gerais, para tentar equilibrar essa nova demanda de mais latas e menos garrafas” analisa.

Marques garante ainda que é importante observar a reação do mercado de commodities, especialmente em relação à China. “Outro padrão que vem acontecendo nos últimos meses é a compra, pela China, de boa parte dos grãos do mundo (trigo, soja, arroz, cevada, milho). Isso reduz a oferta e faz os preços dispararem – não por falta de produto, mas porque o produtor não tem interesse em vender sabendo que pode obter preços melhores com a pressão chinesa”, pontua.

Para driblar a crise
Embora a tendência seja elevar o preço do produto final para compensar a alta do dólar, Alexandre Prim, especialista em finanças do mercado cervejeiro e professor das Faculdades Senac Blumenau, aconselha outra estratégia para os empresários. “Ninguém quer fechar no vermelho e na maior parte das vezes os custos são repassados ao consumidor. Isso é o senso comum. Mas o mais sensato seria articular com a margem de lucro para que o consumidor não fosse penalizado neste momento, levando-o a confiar na marca e ter futuras recorrências. Vale mais perder uma margem de lucro ao comprar matéria-prima mais cara do que fechar no vermelho”, aconselha.

Para driblar a crise no futuro, ele aconselha a compra de matéria-prima com valor pré-fixado. “Uma estratégia é realizar contratos para um, dois ou cinco anos com um valor fixo de uma matéria-prima sem se preocupar com o valor do dólar ou outros intervenientes.Feito isto, seria possível manter uma estrutura de custos bem alinhada ao longo dos próximos períodos. Nada é garantido, no entanto a estrutura de custos é uma dor de cabeça a menos”, avalia.

De olho no futuro, Prim diz que tudo aquilo que foi estabelecido antes da pandemia pode não ser mais o ideal hoje, pois a estrutura das cadeias globais vem se modificando. “É preciso pensar em desenvolver a cadeia do malte/lúpulo no Brasil de forma institucional e não com iniciativas individuais de uma ou duas empresas. É necessário agir de forma colaborativa para que todos possam se beneficiar da importação em vez de contratos individuais onde os custos de transação são maiores. Em contrapartida, devido à alta do dólar, também há uma oportunidade para exportação de produtos feitos no Brasil”, orienta.

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