O pragmático

Inácio era taxista em São Paulo. Seu ponto ficava bem diante de onde eu morava, numa travessa da avenida Brigadeiro Faria Lima, a uma quadra da Gabriel Monteiro da Silva. Disposto e cordato, logo ganhou minha preferência entre os colegas para as constantes corridas ao aeroporto de Guarulhos, mesmo que o voo saísse nas horas mais inconvenientes da madrugada. No caminho, proseávamos sobre tudo: vida familiar, economia brasileira, fatos pitorescos do dia a dia, nosso Nordeste querido. Filho de uma cidadezinha perto de Patos, Paraíba, Inácio sabia em tempo real de tudo o que se passava em seu torrão natal. De vez em quando, dizia: “Qualquer hora dessas eu volto, Fernando. Lá é meu lugar, apesar de eu tudo dever a São Paulo, não nego.” Como tinha uns 45 anos, eu imaginava que lá pelos 60 ele cumpriria seus desígnios. 

Mas não precisou de tanto. Um dia, lá se vão talvez uns quatro anos dilatados, disse que aquela era sua última semana de trabalho. “Mas não se preocupe. Estou destacando um taxista patrício que não é do ponto, mas é bom de serviço. Você vai gostar dele. Ele vai continuar te levando ao aeroporto e onde mais precisar.” O que acontecera? Ora, alguém mostrara a Inácio como funcionava o Uber. Num átimo, ele se convenceu de que os bons tempos do táxi tinham ficado para trás. “Não sei se vão regulamentar isso ou não. Eu só sei que é a própria besta do Apocalipse para a classe. O preço das licenças vai despencar. Vou vender a minha na alta e fazer outra coisa. Chegou a hora de cair fora. Contra a tecnologia, pouco se pode”. Semanas mais tarde, me telefonou da Paraíba. “Comprei um restaurante aqui em Patos. Até a família está adorando. Pararam de fazer cara feia e já estão se acostumando a ser nordestinos, até os nascidos aí. Apareça”.

Bem a propósito, não posso me furtar a uma reflexão. O fator mais torturante da vida de um consultor é compatibilizar sua visão com a capacidade de enxergar do cliente. Há quase 30 anos, com a queda do Muro de Berlim, tínhamos ótimas oportunidades na antiga Alemanha Oriental. “O novo centro da Europa se deslocou. Antes o limite leste acabava em Hof, na Baviera. Agora se deslocou em direção a Riga, na Letônia. Façamos como no tabuleiro de xadrez, ocupemos o centro. Vamos comprar uma fábrica em Chemnitz, perto de Leipzig”. Não houve jeito. Tivesse o Conselho dado luz verde para a ação sugerida, teríamos galgado a liderança planetária no segmento. O mundo anda necessitado de pessoas que saibam descomplicar sem banalizar. Da mesma forma como indicou o substituto para me levar ao aeroporto, eu indicaria Inácio a conselheiro de empresas. O restaurante dele, aliás, vai muito bem. E já abriu uma filial. 

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